O desconforto incontornável

30 de janeiro de 2016 § Deixe um comentário

O homem é um cadáver adiado”. A lendária frase de Fernando Pessoa parece não encontrar eco em ‘Corpo sepulcro’ (Confraria do Vento, 2015). Por uma questão simples: no romance de Mike Sullivan, não há esse adiamento – o processo de (de)composição da morte já se apresenta desde sempre. Para além da brutalidade factual da morte, o romance é uma grande narrativa sobre a experiência de morrer. No fim das contas, importa menos o fato final: interessa mesmo é a situação do morrer, e o que nele se inscreve.

O leitor é apresentado a um personagem sem nome (e que por isso mesmo guarda semelhanças com qualquer pessoa), já de saída da vida. A fase terminal de alguma doença devastadora o prendeu definitivamente ao próprio corpo e já o corrói de dentro pra fora, impossibilitando qualquer vivência a mais. Narrar, nesse sentido, se torna uma apropriação de si, do fim, do morrer – mais um processo da vida, como qualquer outro. Apropriar não como aceitar, mas antes como estar mais perto de tudo o que compôs sua existência – num lance, apropriar como fazer uma experiência: sair de si. O personagem narra, então, o intercâmbio dos estudos em Londres, onde a bebida e a liberdade correm pelas veias; a volta ao Brasil por conta do pai doente começa a descarnar a narrativa: agora, os ossos.

A trama familiar é mofada: o afogamento da irmã, ainda criança – mais ainda: o corpo nunca encontrado – fazem com que sua presença se umidifique na vida do irmão e dos pais, imergindo as relações no terreno pantanoso do luto. Condenado e culpado pelos pais, o personagem transita então pelos limbos enquanto se desvencilha dos rostos familiares. Sua vida como tradutor lhe dá certos subsídios para seguir. Seu modo de enfrentar é a concentração entre o álcool, as drogas, o sexo desenfreado e a literatura – mas nenhum deles se mostra como um cano de escape, uma fuga. Pelo contrário: é a partir deles que ele vai elaborando sua vida, suas vivências atormentadas. O olhar já rútilo é só um detalhe.

Ao se deparar com a tradução de ‘Orlando’, da Virginia Woolf, o personagem começa a se dar conta da inviabilidade de continuar vivendo – menos pela aparição dos sintomas de sua doença terminal e mais pelo peso da própria vida e do sentido dado a ela. A ironia composta por Mike Sullivan é singular: Orlando vive seus 350 anos de vida, enquanto seu personagem definha cada dia mais. As diversas mortes que talharam seu corpo, seus afetos e sua vida agora são volume morto, de fato. Resta lidar com o que fica, com o que sobra – as percepções sensoriais, até o último respirar.

Mike Sullivan entrega uma experiência radical, num romance que traz a morte na carne – como um afeto que provoca o horror. Ao deslocar a morte da extremidade, do fim – o momento exato do morrer – para o próprio caminhar e para o caminho, Sullivan lança seu braço nos ombros da ceifadora e a faz andar lado a lado. Faz da vida um corredor, da pele apenas uma mortalha. A decadência e a sujeira, frequentemente pensadas como questões internas, são expostas ininterruptamente. A narrativa encontra seu vigor aí, e vai irrompendo da imundície dos becos do Rio de Janeiro. Uma narrativa de frases curtas e intensas, que não soam como epitáfios precoces. ‘Corpo sepulcro’ é uma bela agonia, um doloroso suspiro já consumido – sempre.

corpo-sepulcro

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